Como era dantes...

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As expressões como “no meu tempo é que era bom” ou “ dantes é que era…” tomam uma dimensão diferente há medida que o tempo vai passando, que vamos acumulando experiências, boas ou más, pois todas fazem parte da nossa vivência… Mas continua a ser assim, que as antigas gerações caracterizam o seu tempo, a sua era, ainda mais pronunciada quando falamos de sentimentos.

Por vezes questiono, antigamente, (e sim, soa como se tivesse sido há tanto, tanto tempo) como era possível que os amores resistissem a todos os tumultos da vida, às intransigências familiares, à pobreza económica? Porque em contraste, hoje, vivemos numa sociedade em que há a sensação que as pessoas são descartáveis, serviram durante um tempo, construíram, concretizaram algo, mas depois sabemos as mais diversas histórias de como acabaram, e, raramente acabam de forma pacífica. Onde está o espaço de cedência, de adaptabilidade ao outro, de sacrifício por algo que acreditamos, porque são elementos que continuam a fazer parte do Amor ou não? Que é feitos dos casamentos que duravam décadas e resistiam a qualquer obstáculo com que se deparavam? Não penso que tudo isto tenha acabado por causa da independência feminina, mas talvez pela ideia errada, do meu ponto de vista, que o ser humano é auto-suficiente no que toca a emoções conseguindo subsistir maioritariamente só. O ser-humano é um animal social, concebido para viver em comunidade. E no entanto numa aldeia globalizada em que se tornou o nosso mundo, nada mais fácil que encontrar pessoas que padecem de uma extrema solidão!

Nos dias que correm, entre crises económicas, políticas, sociais mas também de valores, fica excluído o tempo para dedicarmos ao outro. Entre a incerteza do amanhã e vontade de encontrar o nosso próprio espaço na vida, que espaço, que tempo existe para dedicarmos a quem cruza a nossa vida... Nunca é fácil renunciarmos a alguém que um dia nos disse tanto, por motivos, que depois até chegamos a conclusão de que poderiam ser solucionados, ainda que dessem trabalho para ser encontrada tal solução. Porque existe uma desistência de lutar por uma relação que se aposta tanto no início apenas porque dá demasiado trabalho, vivemos num tempo de pobreza de afectos verdadeiros. Costuma dizer-se, que um povo que saiba sobreviver na pobreza, é um povo que se torna invencível. Mas viver em pobreza de afectos, jamais!!!

 

Rita Guerra - "Sentimento"

 

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